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A gente sabe o que deve fazer

Por Douglas Monaco

Eu sempre soube o que era certo, mas nunca fiz o certo porque era muito mais difícil. Diferente de mim, este jovem aqui agiu com integridade e parece que por isso será punido. Ele não deveria ser punido e sim protegido, incentivado a continuar assim, porque, a seu tempo, ele dará frutos que farão todos aqui felizes.”

Esta paráfrase é o resumo do que a personagem de Al Pacino esbraveja na cena final do filme Perfume de mulher. A cena expõe o dilema ético central enfrentado por cada ser humano: fazer o certo ou o errado e, por esta escolha, ser punido ou recompensado.

Há muitos séculos, a ética vem interessando pensadores de toda ordem. Não obstante esta notoriedade clássica, ultimamente, a palavra “ética” tem ganhado uma curiosa conotação. As pessoas têm falado de ética como uma tecnicalidade ou uma opção de gente mais esclarecida, algo que cai bem a entidades mundiais, a fundadores de organizações não governamentais (ONGs), ou coisas semelhantes.

A impressão que isso acaba gerando é de que ética é algo opcional, uma coisa quase impertinente que, alguns adotam num gesto magnânimo e, por isso, devem ser aplaudidos e imitados. A verdade é bem diferente e o filme ajuda a ver pontos importantes.

1. O certo e o errado são claros. Junto com a estética, a ética integra o que, em filosofia, chama-se de axiologia, o estudo dos valores. Os estudos de ética são abstratos e fala-se em cinco correntes: fundamentalismo, utilitarismo, dever ético, contratualismo e relativismo. Percebe-se um rigor acadêmico na concepção da ética. Porém, mesmo necessário, este rigor não deve ofuscar a mais básica das verdades: “a gente sempre sabe o que deve fazer”.

2. O errado é sempre o mais fácil. A conduta dolosa continua sendo a mais freqüente e a que se mostra mais fácil de adotar. Fazer o conveniente evita oposição e, muitas vezes, atrai recompensas. Pelo menos temporariamente.

3. O certo é mais caro. O certo, além de mais difícil é muitas vezes punido. Pessoas que se recusam a participar de conluios, que dizem não àquelas oportunidades “que ninguém está vendo”, muitas vezes acabam discriminadas, excluídas ou até agredidas. Talvez o exemplo mais bem acabado para se observar hoje em dia seja o da Igreja Perseguida, pessoas que, ao optarem pela ética cristã, enfrentam forte hostilidade em seus países.

4. O certo precisa de proteção. A opção pela escolha correta somente se sustenta quando este padrão de punição é revertido — ou pelo menos amenizado. É essencial que proteger os que optam pelo que é certo, para que “a seu tempo dêem frutos que façam todos felizes”.

5. É importante haver incentivos para que se faça a escolha fazer o certo. As estruturas de convivência têm de premiar as escolhas pelo que têm de premiar as escolhas pelo que é correto. Seja no âmbito familiar, no local de trabalho, na esfera social, não importa. As instituições sociais, formais ou não, têm de estimular quem é leal, quem cumpre o combinado, quem não trapaceia, quem é “reincidente” em optar pelo interesse alheio em detrimento do individualismo.

Concluindo, enquanto ética for só um “tema acadêmico”, haverá poucas melhorias na convivência humana. O compromisso com o correto é um ideal simples no qual todas as nossas ações têm de se encaixar.

* Douglas Monaco é mestre em administração de empresas pela USP e é secretário geral da Missão Portas Abertas.

Fonte: Revista Seu Mundo, Ano II, Número 6. Editora Mundo Cristão. www.mundocristao.com.br